Quero apenas desabafar, arrancar algumas palavras, já que não consigo arrancar alguns sentimentos:
A muito, muito tempo atrás, quando ainda não tinha um emprego, eu ouvi minha mãe me chamar de VAGABUNDA. Naquela época, eu passava as tardes pintando as unhas, hidratando o cabelo, passando roupa, limpando a casa, comprando paçoca a R$ 0,15 no barzinho da rua e conversando com os amigos, entregando currículos de vez em quando {afinal, a gente desanima um pouco com a falta de sorte!}. Quando eu ouvi aquilo, desejei que pelo menos um dia, um dia, ela sentisse a real sensação de ter uma filha vagabunda. Depois disso, o tempo passou e hoje eu trabalho, hoje eu faço extra, recentemente fui promovida e exerço uma função com uma responsabilidade nada compatível com o salário, eu trabalho aos sábados, domingos e feriados e eu quando chego em casa cansada, ouço cada tipo de comentário, tal como "Você não faz nada o dia todo". Como não? Será que vou ter que repetir este parágrafo? No dia que eu folgo, então, é um auê. Nas minhas folgas, eu procuro sempre recuperar o meu sono perdido, fazer um pouquinho de cada coisa que gosto, além das tarefas domésticas. E ainda ouço que dormir não é tudo, que sou preguiçosa, que acordo tarde. Realmente, para algumas pessoas não o é. Mas e eu? Como fico nesta história? De quem estamos falando mesmo? Noto que as pessoas têm dificuldade de identificar o sujeito da oração, para algumas o sujeito é sempre oculto.
Dias atrás, discuti com o meu pai porque ele se dirigiu a mim com ignorância no momento em que ele exigia que eu não falasse mais palavrão. É, ele não quer que eu utilize pa-ra-le-le-pí-pe-do nas minhas conversas, muito menos usar pneumoultramicroscopicossilico-vulvcanoconiotico*. Sinceramente, acho muito feio quem usa palavras vulgares, quem faz dessas palavras o vocabulário diário. Mas, pôxa, eu só xingo quando estou nervosa e quem me conhece... aliás, quem me conhece bem, sabe que eu sou assim. Que só digo palavrão quando ESTOURO. Enfim, se ele não gosta, vou respeitar, né?! Mas que ele perdeu a razão, aaah, ele perdeu a razão. Bom, depois de o sangue correr mais rápido e ferver, fizemos um trato: eu não vou mais falar palavrão e ele não vai mais ser ignorante. Como eu não fico por baixo, lancei o desafio: "Vamos ver quem consegue!".
No fim {esse desabafo precisa ter um fim}, tudo o que eu quero é ser cada dia mais EU. Quero fazer o que eu gosto, quero quebrar a cara porque não tenho alguém para me orientar nem me apoiar nas decisões mais arriscadas, quero ser feliz e triste quando eu tiver que ser e... principalmente... não quero que pessoas sem moral alguma me cobrem. Não quero ouvir aquela frase estúpida: "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço". No mínimo, quem espalhou essa idiotice foi alguém que tentou justificar o erro com o erro do outro.
Meu recado é simples e direto: estou saturada, estou cansada das pessoas e não vou mais lutar por elas.
* Maior palavra da língua portuguesa, de 46 letras, que significa estado de que é acometido de uma doença rara pela aspiração de cinzas vulcânicas.
