(música: hoje eu quero sair só)
O mar abre seus imensos olhos verdes e derrama sua força através de ventos úmidos. Eu movimento o corpo em ritmo assanhado junto com a espuma brilhante, sem receios e sem timidez. A pele eriçada, pela visão distante do verde-vivo dos montes, realça o novo bronzeado. As dunas imperfeitas e contrastantes inclinam sombras acanhadas aos caranguejos. As lentes dos meus óculos escuros registram o que vejo além do que é simplesmente visto. Meus pés rodam amimados pela areia rosa-mel e fazem-me abrir os braços para o céu-de-ai-meu-deus. Nado nua nas penetrantes águas que saciam minha sede de estar só. Contemplo as asas alongadas dos pássaros p&b. Converso comigo mesma e acalmo o meu ser que sente por si só. Ando até fazer a curva final da extensa ilha de 74 quilômetros. Passam duas bicicletas que jorram festa de água para todas as direções, conferindo ainda mais movimento ao momento. Eu respiro e transpiro prazer. Esboço sorrisos lentos ao sentir na sola as conchinhas crocantes. Umedeço os lábios de maré cheia e cansada refaço todo o trajeto ao contrário. Quase ao fim, reencontro os meus amigos. Eles me convidam a trilhar o mesmo caminho e aceito levemente embriagada de alegria. No fim da tarde, assistimos o sol jogar seus raios no céu.
Vale também lembrar das bananinhas naturais sem açúcar da nossa vizinha xamânica cheia de tatuagens. Do susto que levei com o pescador que pegou uma madeira na areia, se aproximou para perguntar se eu tinha visto alguém passar com uma faca e me pediu um beijo. Das minhas peripécias no volante. Da linda estrada de Cananéia...
terça-feira, 30 de dezembro de 2008
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
A Feira
(continuação)
Nos braços, as sacolas de plástico engancham nos parafusos enferrujados das juntas. Corro com os calcanhares quebrados ao ouvir vozes exorcizadas vender pedaços frescos de gente a baixo custo. Esbarro esquizofrenicamente com um homem, sentado na esquina da vida, de mãos coloridas de sangue que mete entranha em entranha; que engorda o próprio corpo com outro corpo. Ele vilmente roda na ciranda dos sentimentos alheios com uma loira exuberante de ventre aberto. No girar, no balançar, ela pari sua criança que rasga os pulmões atravessados de fumo. Enquanto isso... estou a lançar pela boca todo o conteúdo gástrico de uma vaidade ferida: estar morto é sonhar sempre; é não ter filhos nem fome no ventre, é nunca mais se querer suicidar!
Nos braços, as sacolas de plástico engancham nos parafusos enferrujados das juntas. Corro com os calcanhares quebrados ao ouvir vozes exorcizadas vender pedaços frescos de gente a baixo custo. Esbarro esquizofrenicamente com um homem, sentado na esquina da vida, de mãos coloridas de sangue que mete entranha em entranha; que engorda o próprio corpo com outro corpo. Ele vilmente roda na ciranda dos sentimentos alheios com uma loira exuberante de ventre aberto. No girar, no balançar, ela pari sua criança que rasga os pulmões atravessados de fumo. Enquanto isso... estou a lançar pela boca todo o conteúdo gástrico de uma vaidade ferida: estar morto é sonhar sempre; é não ter filhos nem fome no ventre, é nunca mais se querer suicidar!
sábado, 6 de dezembro de 2008
Surpresa
Dannutti andava pela rua com um prazer estranho. Sentou-se na escadaria. Discou para um número e deitou-se numa cama misteriosa com um desconhecido - o seu noivo nunca desconfiou. Três anos se passaram e ela descobriu que fora traída. Não pôde perdoá-lo. Não pela traição. Mas por ele não ser capaz de guardar um segredo.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Invisíveis
Expiro e ainda existo. Sim, existo! — pensei. Por que teme o dia que ficará sem mim? Por acaso não sabe que nos encontraremos em qualquer espaço, esquina, café, fazenda, plano, aéreo..., desde que não se limite às coisas visíveis?
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Livros lidos em novembro:
Livros lidos em novembro:
A metaformose
Matias na cidade
O ensaio sobre a cegueira
O milagre dos pássaros
Filme para recordar:Madame satã
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
Caetaneando-me
Lanço-me para fora da janela dos meus olhos, como um objeto transcendente.
Lagrimo-me em risadas para fora da minha espalhafatosa timidez.
Lagrimo-me em risadas para fora da minha espalhafatosa timidez.
domingo, 16 de novembro de 2008
Universo Tamaresco
Palavras de ordem: utilidade e ordem.
Se algo não puder ser usado, descarto com uma crueza que poderá aterrorizar os mais sentimentais. Já joguei fora romances, porque não eram úteis.
Conheço minha força e minhas fraquezas e não gosto de exagerar nem na arrogância nem na falsa modéstia. Uso o que me vem à mão para criar ordem ao meu mundo. Ordem do ambiente material, do reino das idéias, ou do corpo e da mente.
Discriminação é uma de minhas características. Sutileza de pensamento e ação também. Percepções em preto e branco induzem a um universo simples e, para mim, o universo é raramente simples.
Meu trabalho é a primeira coisa que revelo às pessoas, e não meu mundo secreto. Nem todos os meus bens ficam à mostra na vitrine.
Com toda a auto-suficiência, o reino emocional é naturalmente a mais complicada do quebra-cabeça. Emoções não são organizadas e fazem-me sentir vulnerável. Lá dentro, bem no fundo, há um estoque enorme de sensibilidade, romantismo e visão imaginária. Só os escolhidos conhecem.
É verdade que ninguém nunca me verá oferecendo minhas últimas moedas a um mendigo na rua. Mas já me viram oferecendo um discurso sobre "auto-ajuda", com minha atenção muito aguda para com as ruínas humanas.
Planejar para o futuro quase se tornou uma obsessão, pois o meu realismo faz com que seja difícil confiar na vida. No entanto, quando me sinto segura, sei ser a mais gentil, a mais suave e a mais generosa de todas as almas, doando meu tempo e minha capacidade abertamente.
Sou uma criatura complexa, com muitas máscaras e disfarces. Mas aprendi a lição muito cedo, mesmo que seja só a realidade.
Se algo não puder ser usado, descarto com uma crueza que poderá aterrorizar os mais sentimentais. Já joguei fora romances, porque não eram úteis.
Conheço minha força e minhas fraquezas e não gosto de exagerar nem na arrogância nem na falsa modéstia. Uso o que me vem à mão para criar ordem ao meu mundo. Ordem do ambiente material, do reino das idéias, ou do corpo e da mente.
Discriminação é uma de minhas características. Sutileza de pensamento e ação também. Percepções em preto e branco induzem a um universo simples e, para mim, o universo é raramente simples.
Meu trabalho é a primeira coisa que revelo às pessoas, e não meu mundo secreto. Nem todos os meus bens ficam à mostra na vitrine.
Com toda a auto-suficiência, o reino emocional é naturalmente a mais complicada do quebra-cabeça. Emoções não são organizadas e fazem-me sentir vulnerável. Lá dentro, bem no fundo, há um estoque enorme de sensibilidade, romantismo e visão imaginária. Só os escolhidos conhecem.
É verdade que ninguém nunca me verá oferecendo minhas últimas moedas a um mendigo na rua. Mas já me viram oferecendo um discurso sobre "auto-ajuda", com minha atenção muito aguda para com as ruínas humanas.
Planejar para o futuro quase se tornou uma obsessão, pois o meu realismo faz com que seja difícil confiar na vida. No entanto, quando me sinto segura, sei ser a mais gentil, a mais suave e a mais generosa de todas as almas, doando meu tempo e minha capacidade abertamente.
Sou uma criatura complexa, com muitas máscaras e disfarces. Mas aprendi a lição muito cedo, mesmo que seja só a realidade.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
.Morte
O Grande Livro Branco de Hanna23
Eu era muito nova. Ainda me lembro da estranheza. Contaram-me “sobre” a morte. Disseram-me que um dia todos morrerão. Que ela vem sem nos avisar. Que se morre até enquanto está dormindo. Ficava a imaginar, no meio daquela conversaiada toda, a cor da morte. P&B? Como será que ela chega? Será que ela espera a gente deitar na cama para puxar o nosso pé e assim morremos de susto? Ou será que ela nos congela com seu beijo, já que soube que os mortos são gelados? Sempre que despertava, pela manhã, tratava de levantar sem vacilar com medo de a morte aparecer. Não entendia e ficava aflita com meus pais, ali, dormindo, esperando pela morte. Temia não conhecer a minha irmã (sempre soube que seria uma menina!) porque a morte poderia invadir-me de repente. Não gostava nem das sombras. Acreditava que elas eram parentas. Por isso persegue a gente, por todos os lugares.
Hoje, eu ouvi que a morte é longa, longa, longa, looonga...
Hoje, eu ouvi que a morte é longa, longa, longa, looonga...
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
Colares
E pendurou no pescoço a excrescência acerada de uma experiência mal sucedida para lesar a pele sensível ao andar... como recordação, é óbvio!
Quantos colares possui?
Quantos colares possui?
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
Algum Sentido
(um dedo de Pessoa)
Da janela só um girassol.
No não lá-fora chove.
O vento varre a idéia do perfume da saia de flores murchas estampadas.
Sente-se o ar sorrir: é alguém que vai entrar pela porta.
A transparência das cores das flores acende o som da chuva que o alaga por dentro.
O espaço pára, escorrega, desembrulha-se.
Bailam lá fora redemoinhos de sol, cavalos de carrossel, árvores, pedras, montes, noite absoluta de luar no dia de sol lá fora.
De repente, sacode esta hora dupla como uma peneira misturando o pó das duas realidades.
Da janela só um girassol.
No não lá-fora chove.
O vento varre a idéia do perfume da saia de flores murchas estampadas.
Sente-se o ar sorrir: é alguém que vai entrar pela porta.
A transparência das cores das flores acende o som da chuva que o alaga por dentro.
O espaço pára, escorrega, desembrulha-se.
Bailam lá fora redemoinhos de sol, cavalos de carrossel, árvores, pedras, montes, noite absoluta de luar no dia de sol lá fora.
De repente, sacode esta hora dupla como uma peneira misturando o pó das duas realidades.
centopéia pipoca murcha
macacos bate-bate avenidas pretinho original
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Até que sumiu!